Publicado em 23.03.2018 - Para Ler - Sem comentários

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Matéria publicada na Folha de São Paulo, 18 de março de 2014.

Resposta a Fábio Porchat

ROSELY SAYÃO

É, meu caro Fábio, a vida dos filhos não anda fácil, tenham eles três meses, três anos, 13 ou 30

Caro Fábio Porchat, você escreveu em sua coluna pedindo minha ajuda, ou não, a respeito de uma situação que envolveu um amigo seu e o pai dele, ou você e seu pai. Tanto faz. Nesse caso, não importa a identidade dos envolvidos e sim o laço entre eles. No caso, pai e filho adulto. Pertencer a uma família é sempre uma encrenca, não é? Mas, sem ela… que alguém nos acuda!
Vou resumir: o filho fez um vídeo de humor e, por causa dele, recebeu uma ameaça de morte vinda de um blog. Com a maturidade que um adulto deve ter, resolveu a questão ao seu modo, sem muito alarde, e logo o blog estava fora do ar e o filho aquietado.
Mas o pai, assustado com o risco que o filho corria, decidiu tomar uma atitude, com a melhor das intenções e à revelia do filho. E assim afetou negativamente o filho, colocando o assunto em foco novamente, agora sob luzes muito mais brilhantes. Precisamos reconhecer: de boas intenções o inferno está cheio…
Agora, o medo do filho é que a situação se repita em outras ocasiões. “O que fazer?”, me perguntou você.
É, meu caro Fábio, a vida dos filhos não anda fácil ultimamente, tenham eles três meses, três anos, 13 ou 30. E conheço marmanjos com quase 40 enfrentando barras parecidas. Você sentiu na pele o que milhares de crianças, jovens e adultos sentem diariamente.
De uns tempos para cá –décadas–, os pais decidiram ter a posse sobre os filhos. Observe a fala dos pais. “O MEU filho…” é uma frase que você já ouviu muitas vezes. Prestando atenção na entonação, você vai perceber que a palavra MEU é muito mais forte que a palavra filho. E olha: desapegar, em tempos de acumulação, está difícil.
Além disso, muitos pais passaram a pensar que os filhos são de cristal, frágeis. Por isso, querem resolver todos os problemas que eles acham que o filho tem. Como no caso do moleque que fica envergonhado porque o pai decide tirar satisfações com o colega com quem brigou –e muitas vezes com os pais deste.
Caro, as coisas caminharam muito além: hoje, os pais resolvem os problemas da faculdade do filho, conversam com a namorada ou namorado para saber se está tudo correndo como deve e –pasme!– tem até pai ligando para o orientador da tese de mestrado do filho pedindo que ele estenda um pouco o prazo para a defesa porque, coitado do filho, está tão pressionado com isso!
Alguns filhos se incomodam, como no caso em que você me pediu ajuda, mas outros deitam e rolam porque são encantados pelo canto da sereia. Quer coisa melhor do que viver no desfrute com os pais atrás, na retaguarda? Ou pior?
Hoje, muitos pais não admitem que a partir do momento em que a criança passa a ir à escola, ela ganha batalhas próprias que precisa resolver sozinha.
Também não reconhecem que, a partir da adolescência, precisam tutelar a vida do filho discretamente e intervir só quando necessário, para ajudá-lo a se tornar capaz de administrar plenamente a própria vida. E, quando os filhos chegam à idade adulta (máximo 20 anos), não aceitam que devem sair de fininho da vida de seus rebentos, de preferência pela porta dos fundos, para que eles a assumam com maturidade.
A partir de então precisariam, corajosamente, permitir que o filho erre, que cometa bobagens, que arque com a consequência delas e, se precisar, que peça ajuda.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)